Quinta, 25 de março de 2004. (17s1d)
postado por Fernando:
MENINO OU MENINA?
As pessoas são engraçadas: a metade diz que acha que será menino. A outra metade diz que acha que será menina. E, breve, quando soubermos o sexo, os que tiverem acertado dirão com a cara mais orgulhosa do mundo: "Ah, eu sabia..." E as que errarem se calarão sobre o assunto, até que encontrem a próxima pessoa grávida e digam o que acham que será, sempre acrescentando que "Eu nunca erro...". As pessoas são engraçadas, quando elas não têm esta "intuição" elas têm ao menos uma simpatia que "nunca falha" e permite que se descubra o sexo do bebê logo no 1o mês.
Eu não consigo acreditar em nada disto e deixo o tempo passar, até que a ultrasonografia responda "A Segunda Grande Questão": é menino ou menina? (A primeira: está grávida mesmo? A terceira, quando nasce: é perfeitinho?)
Não tenho pressa de saber, o que tem que ser já é, e creio que pouca diferença fará, nos próximos meses ou anos, se é homem ou mulher. Claro que há diferenças, só não acho que sejam do tamanho das diferenças que haverão quando este "bebê" tiver lá seus 15 anos.
A mãe tem uma preferência, eu tenho outra. "Preferir" pode ter vários significados: todos já vimos pessoas se decepcionarem amargamente com o sexo de um bebê, e transferirem esta mágoa ao recém-nascido, através do desprezo. Ou pior, tratando-o como se ele fosse de outro sexo! No meu caso, nada a ver com isto, tenho uma preferência, apenas por achar que um dos sexos traz um desafio maior, talvez seja apenas por isto, pelo desafio, mas qualquer que seja será bem-vindo. Até mesmo porque não pretendo que este seja meu único filho, então, de um modo geral, tanto faz.
Eu prefiro menina. Porque eu gosto de mulheres. Eu comentei isto com uma amiga, que arregalou os olhos e disse "Creedo!" como se eu tivesse dito que irei "comer" minha filha. Nada a ver, o negócio vai além disto. Muito além.
É até meio difícil explicar, mas tentarei. Um menino a gente joga no mundo e ele segue, de forma mais ou menos autônoma, seu caminho. O mundo ainda coloca o homem como soberano e, nesta cultura, o que tem que se fazer é ir apontando um caminho ou outro, fazendo algumas correções na rota, mas o menino segue seu caminho.
Já uma menina não. Pode parecer machismo, mas não é. É apenas uma constatação: o mundo feminino apresenta uma série de sutilezas e de escolhas tão díspares que me parece um mundo bem mais complexo. Uma mulher pode, por exemplo, desde abdicar de ter filhos e seguir uma carreira de sucesso até fazer o oposto, abdicar de uma carreira para cuidar dos filhos.
É aí que entra o interessante da relação: um homem, lidar com um mundo destes, na forma de ser um pai, ou seja, alguém que teoricamente sabe mais, tem mais experiência, e tem que educar e, além do mais, proteger, tudo isto me parece mais complicado que se fosse menino.
Fala-se muito, em psicanálise, do complexo de Édipo, que é aquela fase em que, por volta dos 6 anos, a menina se apaixona pelo pai e a mãe tem que fazer um corte nesta simbiose. Este corte, traumático, será esquecido posteriormente, entrando para o inconsciente, e a menina tentará, alguns anos depois, ser de certa forma como a mãe para seduzir alguém de certa forma parecido com seu pai.
Muito se fala desta fase dos 6, ou 7 anos, mas pouco do que acontece quando a mulher entra nesta fase de tentar seduzir outros homens, na adolescência. Tenho visto alguns pais bem resolvidos, mas tenho visto outros doentes de ciúme.
Geralmente o "doente" é o machão-galinha-sacana que, na sua visão de como os homens são, por só conhecer bem a si mesmo, acha que todos são iguais a si e que todos querem apenas aproveitar de suas filhas. Tipinho escroto, que além de cego é espertinho, querendo que o mundo seja só dele. O que, já velho, sai com garotas novinhas mas literalmente mata um outro velho ("Seu tarado!") que ouse mexer com sua filha. Esses caras de um modo geral vêem a mulher como apenas um objeto e, estes sim, comeriam suas filhas - quando não o fazem mesmo, se a patologia chega a um grau mais elevado!
Esta fase dos 13 aos 18 anos, por aí, para o pai, deve ser a mais complicada. É quando a menina começa a sair de seus braços e passa a procurar outros. Eu não sou ciumento (já fui), nem quero ser (porque vejo claramente que é uma doença). Mas de qualquer forma, você ama sua filha e a quer ver feliz, certo? Se ela se apaixona em alguém e está tudo bem, perfeito. Mas se NÃO está tudo bem, o triângulo pai-filha-namorado da filha entra em um jogo tenso. O pai percebe as manipulações do cara. E tenta ajudar a filha. Mas percebe as da filha, e faz vista grossa, só porque é filha? E vê as qualidades do cara, mas cai no dilema: prefere que a filha tente resolver este relacionamento ou apóia ela para que o deixe e procure o "príncipe encantado"? Teus atos passam a ter um peso duplo: de conseguir, ao mesmo tempo, que a relação dela com os homens seja boa, e de que a sua relação com ela seja boa.
Quando minha filha tiver 18 anos (se for menina, lógico!), eu terei 45 anos, em plena "idade do lobo". E aí podem haver outras pessoas no meio, complicando mais a situação.
Não é fácil, mas me parece bastante interessante. Bem mais que esperar seu filho homem chegar em casa e perguntar: "E aí, pegou alguém hoje?". Eu acho meio chato conviver com homens. Sei que estou generalizando, mas eles são banais, previsíveis. Por isto gosto de conviver com mulheres ¿ elas são estranhas, múltiplas, sedutoras, às vezes incompreensíveis, quase sempre interessantes...
E eu aqui, hoje, que nem sei o sexo, falando de coisas que ocorrerão daqui a 15 anos? Estou pior que as adivinhadoras do sexo!
PS: Mas a menina tem que ser bonita (outro mito é este de que todos os pais sempre acham os filhos lindos - podem até dizer para o filho que o acham, mas só para não magoar). A menina tem que ser bonita, para que todo este jogo se desenvolva. Se ela é feia, o pai vai é torcer pra desencalhar logo...